#2꩜ quando as coisas não passam, a gente tem que passar pelas coisas.

A news desse mês tá um pouco diferente e bem mais íntima: decidi tirar alguns pensamentos e sentimentos do meu bloco de notas e compartilhar com quem ama sonhar. Muitos dos quotes que dão título aos meus pensamentos foram conselhos, frases, ditos populares, palavras de apoio ou aspas famosas compartilhadas comigo por pessoas que eu amo ou admiro, de perto ou de longe, nos últimos anos. Me dando uma brechinha de conforto e me trazendo firme até aqui. Cada dia mais perto dos 30 e vivendo os 20 como se não fossem ter fim.
“E se a felicidade nunca foi embora mas simplesmente mudou de forma?”

Essa frase fez parte das notas do desfile Inner Child da grife taiwanesa Namesake apresentado na última semana de moda masculina em Paris – minha primeira vez trabalhando em um fashion week. Trabalhar em uma semana de moda sempre foi um sonho de criança então, estrear em Paris e com esse enredo foi muito especial.
Quando a gente é criança, a gente não vê a hora de crescer. E acredita que essa transição é tipo um portal: você faz 18 anos e, de repente, carreira sólida e contas pagas. Sendo que, na realidade, nem o nosso cérebro está completamente formado, quem dirá autossuficiente.
Começar dizendo que “os 20 anos são as trincheiras”, como bem disse Julia Fox, é o mínimo. Os meus, assim como os de quase todo jovem, foram feitos majoritariamente de escolhas erradas. Umas mais significativas que outras mas, democraticamente, em vários os campos da minha vida. O que quase ninguém conta é que os 20 anos servem exatamente pra isso: tentativa e erro.
No meu caminho acadêmico e profissional, por exemplo, esses anos foram permeados por dormências, o que é comum entre profissionais criativos. Por vezes, as dinâmicas da indústria fazem parecer que a gente tá lidando com a abstração de uma carreira e não construindo algo concreto. Dei fuga da moda e cai de paraquedas na comunicação, só pra continuar a me sentir correndo em círculos.
Passei alguns anos, até entender o jogo do mercado publicitário que, apesar de ter uma embalagem bonita, é o meio mais cruel do mercado criativo. Entre exaustões, decepções e aproveitando a sabedoria do tempo, eu decidi parar de apostar nos outros e comecei a apostar apenas em mim.
“Viajo porque preciso, volto porque te amo.”

A pessoa mais sábia que eu conheço me disse que “quando perdemos o equilíbrio é quando as coisas acontecem.” Depois de perder tempo com o que não me servia e ter me conformado com o que não era para mim, colei de volta todas as asinhas da minha imaginação e voltei a sonhar.
Para limpar o paladar ou o olfato, é preciso treinar o cérebro a partir de estímulos fortes, na boca ou nariz, como forma de abrir caminhos para novas experiências sensoriais. Ao experimentar diferentes perfumes, por exemplo, limpamos nosso cérebro com o cheiro do café e depois bebemos um copo d’água simples ou cítrica para voltar a sentir a sequência de fragrâncias.
Viajar é a mesma coisa, só que para a mente: ver o que nunca se viu, ter contato com um novo idioma, comer o que nunca comemos, presenciar uma atmosfera e cultura totalmente novas. Sentir o que nunca sentimos expande nossa perspectiva e é também uma forma de se redescobrir no mundo. Viver plenamente é se jogar no desconhecido, faz sentido?
Em 2024, quando voltei da minha primeira viagem a Paris, entre os fascínios e aprendizados, prometi aos meus pais que voltaria com eles. Muita coisa aconteceu de lá pra cá. Mesmo assim, tô muito feliz por ter conseguido cumprir minha promessa; não da forma que eu planejei, mas de um jeito bem especial também. Visitar pela segunda vez um lugar que um dia pareceu inalcançável é forte.

Não posso dizer que fiquei surpresa com a minha ida consecutiva para a segunda capital fashion – sabemos qual é a number one 🗽 – por dois motivos: 1) já tinham me cantado essa pedra e 2) eu não ia aguentar ficar longe por muito tempo. Surpreendente mesmo é como tanta coisa pode mudar em apenas um ano. O destino era familiar mas foi tudo muito diferente, a começar por toda a bagagem real e subjetiva que levei comigo: muito mais repertório, coragem, inteligência emocional e… já disse coragem?

Thao Nguyen Phan: The Sun Falls Silently; Palais de Tokyo, 2025.
Sinto que voltei à Paris para dar fim à algumas agonias e buscar uma parte de mim que estava adormecida nas perdas, obrigações e responsabilidades. Tomei posse do meu espírito e ao mesmo tempo me despedi de uma versão minha que, pro bem e pro mal, nunca mais vai existir. Viver as perguntas ao invés de procurar respostas.
Continuei a correr em círculos e, de repente, até isso eu consegui ver como positivo. Afinal, existe lugar melhor para correr em círculos do que Paris? Plena do meu propósito, com uma noção novinha em folha do que é felicidade, pulando de arrondissement em arrondissement, na cidade de caminhos curvos e infinitos, eu fui. Em Paris, a vida tá na ponta do nosso nariz e ao alcance dos nossos dedos. Uma cidade feita para ser admirada como um reflexo de nós mesmos.
Mais uma vez, fiquei um mês, pique moradora como minhas amigas dizem – inclusive, tenho o mapa do metrô de Paris na palma da minha mão <333 dá a carteirinha para ela 🇫🇷.
Entre um “não acredito que tô aqui de novo (!!!)” e outro, a checklist de retorno consistia em: matar as saudades de todas as minhas comidas favoritas; fotografar com a câmera que ganhei do meu pai; alta costura no louvre; (talvez) roland garros; conhecer versailles; rolézinho noturno de bike (CNTPs super específicas); provar o chocolate quente do carette e cravar o meu favorito na rivalidade angelina x carette; pirubar muito no fête de la musique; e, por fim, meu objeto de desejo maior e absoluto…esperar/me preparar para a semana de moda. Conseguir convites parecia tão improvável quanto uma chance de trabalho.
Destaque para o dia 2 de junho. Uma segunda-feira nublada. Seis dias de transmissão ao vivo em Paris e o saldo até o momento era: um date, muito chocolate quente e zero emails/dms respondidos. Apesar das distrações oportunas, meu foco era única e exclusivamente movimentar a meta dos euros, mas até então sem sucesso. Collabs eram a maioria das oportunidades que apareciam, a tal da visibilidade, e eu não sai do sul global para trabalhar de graça para europeu, respectfully.
Até que, fazendo jus ao meu DNA brasileiro, “quem não chora, não mama”, “não desiste nunca”, enviei o email que mudou tudo. A resposta positiva veio em pouquíssimos minutos. Foram 21 dias de expectativa, entre o SIM e o primeiro dia de stu(dio). Quem é do babado sabe que essa é a conta do pai dos caminhos.
No final, deu a lógica. Corri em círculos para cair de paraquedas em uma produção e território completamente desconhecidos: sem me sentir segura para falar francês e a única pessoa que “conhecia” da equipe estava desaparecida. Mesmo assim, com jeitinho e carisma, os dias de pré-produção foram (in)tensos mas icônicos.
Depois de muita espera, tudo que eu mais queria aconteceu em um dia. Literalmente, no último dia.

Desfile Namesake @ École Massillon, junho 2025.
O dia 29 de junho começou introspectivo, insone e cheio de expectativa vendo um nascer do sol lindo do apartamento mais gracinha do 20ème; seguiu com a realização de um sonho no desfile da Namesak3; de lá para o pôr do sol mais especial da minha vida, na Pont des Arts, onde joguei uma parte das cinzas do meu pai no Rio Sena ouvindo uma das músicas favoritas dele, Black Magic Woman, no meu AirPod; & terminou no telhado de um apartamento muito parisiense curtindo uma vista digna daqueles filmes clássicos franceses assistindo ao meu último nascer do sol na cidade muito bem acompanhada.
De um nascer do sol à outro, depois de ter vivido um dia com todos os elementos do “dia perfeito”TM, admirando o amanhecer no céu, finalmente consegui refletir sobre tudo que tinha acabado de acontecer: o trabalho e a paixão, a companhia e a solidão, a vulnerabilidade e a diversão, e entendi que era aquele sentimento que eu iria buscar em tudo que eu fizesse pelo resto da minha vida. Tranquilidade e plenitude. Queria que aquele instante durasse pra sempre.

Para uma alma triplamente venusiana como a minha, movida a encanto, harmonia e prazer, depois de muito voyeurismo, conforto e compromisso, voltar pra casa é o verdadeiro final feliz de uma viagem que foi um testemunho de obediência, fé e paciência.
Cumpri a promessa que fiz ao meu pai, apostei muito alto em mim mesma e venci de muito mais formas que poderia imaginar. Voltar de Paris pela segunda vez, foi o mesmo que voltar de vez pra mim. Para ser o que você deseja, você tem que ser o que você é.
Não sei se consegui transmitir a sensação de filme dessa viagem mas escrevi tudo isso só pra dizer que: foi nesse pôr do sol, nessa ponte, nesse rio que eu deixei uma parte do meu coração para sempre em Paris. Me senti no topo do meu mundo, o lugar mais feliz e seguro, tipo a carcunda do meu pai. & o ouvi assobiar lá do céu.

29 de junho, 22h57, Pont des Arts, Paris.
“A noite era o sonho de uma cidade doce.”
Ter coragem e assumir riscos são a forma mais pura de apostar na própria felicidade. Quando entrei no projeto “A noite era o sonho de uma cidade doce” do fotógrafo genial e amigo querido Victor de Beija, conversamos muito sobre as expectativas e cobranças da transição para a vida adulta. Nas palavras dele, o que criaríamos seria “uma carta de despedida à juventude, onde a noite já não pode ser a única via de mudar a vida.”
A noite é um refúgio para a juventude: para os que são jovens há pouco ou muito tempo; para quem foi jovem de corpo e alma desde o início ou pegou no tranco mais pro finalzinho; e até para os inimigos do fim [da juventude]. A noite é uma ótima companheira para os corajosos e foi ao lado dela que eu descobri que sonhos não envelhecem. Podem até adormecer, mas basta uma simples lembrança para o desejo voltar à tona de olhos bem abertos.
Como às vezes uma imagem vale mais que mil palavras, criamos a muitas mãos esse editorial como uma homenagem à juventude que pega carona em todos os “talvez” para desvendar a própria vida e dar o próximo passo.

Direção criativa e fotografia por Victor de Beija; Styling por Rachel Oliveira Vieira; Grooming por Mizuki; Assistência de foto por Ana Santos; Modelos Isadora Maria e Vinicius Olira.
Fotografado no Centro do Rio de Janeiro, sob a energia de Paris Tropical que arquitetura do século XX dessa parte da cidade exala, encontramos a beleza ruidosa e as aventuras silenciosas de um editorial inspirado em Anjos Caídos do diretor Wong Kar Wai. Entre Paris, Hong Kong e Rio de Janeiro, a noite virou pano de fundo e denominador comum para uma juventude que se assume entre deslumbre e desespero mas nunca vai embora. Entre erros e acertos, cada pedacinho de nós faz parte do que construiu o nosso senso de nós mesmos atravessando o futuro.
E a vida adulta não é nada senão um compromisso recorrente com a nossa própria felicidade. Os touchpoints mudam vez ou outra, por isso é importante se manter aberto às novas experiências, ao mesmo tempo em que nos mantemos conectados com o olhar que moldou o nosso futuro, a pureza e curiosidade da nossa criança interior.
“A vida se encolhe ou se expande de acordo com a nossa coragem.”
Assim como a vida, a moda e o mercado criativo no geral, testam a nossa coragem o tempo todo. Me jogar no mundo, mudar de carreira e sair da minha zona de conforto me fizeram conhecer mais a mim mesma e isso refletiu diretamente na robustez do meu trabalho e no meu repertório. Ser culturalmente fluente é o que herdei de mais precioso dos meus pais. Sinto que a satisfação que senti com essa viagem e com o resultado desse editorial reverberou em muitas partes da minha vida e é a resposta que a vida começou a me dar depois de ter aceitado viver profundamente tantas perguntas.
Obrigada por ler até aqui <3